Memória
Dr. João Mariano Sepulveda
Cárdio-Geriatra
@no_formol
www.medicareclinica.com.br
Talvez a principal queixa de quem procura um acompanhamento
geriátrico, seja, o déficit de atenção e memória! Mesmo que muitas vezes só
seja lembrada quando inquirida durante a consulta, essa é a campeã dos males
relatados ¨minha memória esta péssima¨! Diante disso, estabelecer e determinar
possíveis causas e auxiliar na recuperação e restauração, quando viável, parece
ser um dos principais desafios da geriatria.
Memória é acúmulo, desenvolvimento e manutenção, assim como,
evocação de informações. O acúmulo ou aprendizado, porque ,só se grava o que
foi aprendido; a evocação e a lembrança (recuperação), pois, só lembramos o que
gravamos, o que foi aprendido! Logo, podemos afirmar que somos o que lembramos
ou o que recordamos, gravamos, fixamos e vamos estabelecer padrões e moldes, para toda vida através dos
conhecimentos e informações que acumulamos. Certo seria usar o termo ¨memórias¨ como acúmulos de mistos de experiências
possíveis, logo, são tão vastas quanto todas as experiências que um ser humano
é capaz de vivenciar. Somos o que lembramos, porém, podemos ser aquilo que
esquecemos quando estabelecemos compartimentos dentro de nossas lembranças para
nos protegermos de experiências ruins e que nos incomodam nos violam e/ou revelam partes omissas do
nosso ser. É muito comum que pessoas que passem por fortes traumas neguem ou
bloqueiem acessos á banco de dados que desencadeiem vínculos de revivenciamento
dos sofrimentos, frequentes nos quadros
depressivos pós perdas, ou de stress continuado.
Nós seres
humanos como muitos grupos animais (golfinhos, símios, etc.) tendemos a
conviver em grupos e estreitarem seu convívio social estabelecendo proteções,
conjunções, uniões (casamentos, famílias, vilas, cidades, etc.), juntos formam
a memória coletiva, a recordação dos hábitos, tradições, costumes, preferências
racionais e afetivas e ao conjunto destas identificações dos povos, países,
civilizações, dar-se o nome de história. Portanto, a memória é do indivíduo,
porém transcende a individualidade até a coletividade! Analogamente sem
memória, sem história.
Ainda
estabelecendo relações lembremos que neurônios são os chips de armazenamento da
memória do ser humano. Um neurônio estende-se em sua formação por vários
centímetros, interliga-se com outros por substâncias chamadas
neurotransmissores. Para cada tipo de atividade e requisição neural existe um
neurotransmissor específico ou um somatório destes formando novas substâncias
atuantes. Portanto, formação de memória é um processo físico, químico, neuroendócrino
e psíquico e algo tão multifatorial não pode ser encarado de forma tão
simplista.
Vários
fatores interferem na formação e fixação de memória, transitórios ou
definitivos, físicos, mentais ou sociais, porém todos com interferência direta
na produção, fixação ou demanda de substâncias neurotransmissoras. Cansaço,
stress contínuo, ansiedade, depressão, infecções (AIDS), hipertensão,
alterações hormonais (hipotiroidismo) e principalmente alterações genéticas. A
experiência que melhor exemplifica a importância dos neurotransmissores na
formação de memória talvez seja o parto normal, muito doloroso, porém nem
sempre lembrado pela dor, pois essa é bloqueada pela produção de ocitocinas e
endorfinas que provocam uma certa amnésia desta hora. Endorfinas que também
bloqueiam as fortes dores musculares quando praticamos atividades físicas
extenuantes.
Preservar e
proteger a memória passa então por
práticas que pressupõe evitar alcoolismo,
tabagismo, sedentarismo; utilizar alimentos funcionais, protetores e
estimulantes do funcionamento intestinal considerado o segundo cérebro por sua
vasta capacidade de produção de substâncias neuroativas, tais como alimentos
ricos em ômega 3, vitaminas, polifenois, antioxidantes (lembrar o chocolate amargo, chá verde, o café,
o vinho tinto seco).
Atentar para o
streess e sobrecargas emocionais gerenciando expectativas e perdas.
Manter a atividade intelectiva, laborativa, ambiental, a
utilidade social, viver experiências
novas formando novas memórias, principalmente as emotivas, e se emotivas,
procurar que sejam positivas construtivas e somatórias.
Estabilizar então os múltiplos fatores que interferem na
formação e manutenção da memória evitando os entraves que emperram as gavetas
dos arquivos de nossas lembranças é um dos mais complexos resgates da
geriatria. Bom domingo!
JMS
perder a memória é sempre ficar 'demente'?
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