sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Memória



Memória


Dr. João Mariano Sepulveda
Cárdio-Geriatra
@no_formol
www.medicareclinica.com.br
 
Talvez a principal queixa de quem procura um acompanhamento geriátrico, seja, o déficit de atenção e memória! Mesmo que muitas vezes só seja lembrada quando inquirida durante a consulta, essa é a campeã dos males relatados ¨minha memória esta péssima¨! Diante disso, estabelecer e determinar possíveis causas e auxiliar na recuperação e restauração, quando viável, parece ser um dos principais desafios da geriatria.
Memória é acúmulo, desenvolvimento e manutenção, assim como, evocação de informações. O acúmulo ou aprendizado, porque ,só se grava o que foi aprendido; a evocação e a lembrança (recuperação), pois, só lembramos o que gravamos, o que foi aprendido! Logo, podemos afirmar que somos o que lembramos ou o que recordamos, gravamos, fixamos e vamos estabelecer padrões e  moldes, para toda vida através dos conhecimentos e informações que acumulamos. Certo seria usar o termo  ¨memórias¨ como acúmulos de mistos de experiências possíveis, logo, são tão vastas quanto todas as experiências que um ser humano é capaz de vivenciar. Somos o que lembramos, porém, podemos ser aquilo que esquecemos quando estabelecemos compartimentos dentro de nossas lembranças para nos protegermos de experiências ruins e que nos incomodam  nos violam e/ou revelam partes omissas do nosso ser. É muito comum que pessoas que passem por fortes traumas neguem ou bloqueiem acessos á banco de dados que desencadeiem vínculos de revivenciamento dos sofrimentos, frequentes  nos quadros depressivos pós perdas, ou de stress continuado.
            Nós seres humanos como muitos grupos animais (golfinhos, símios, etc.) tendemos a conviver em grupos e estreitarem seu convívio social estabelecendo proteções, conjunções, uniões (casamentos, famílias, vilas, cidades, etc.), juntos formam a memória coletiva, a recordação dos hábitos, tradições, costumes, preferências racionais e afetivas e ao conjunto destas identificações dos povos, países, civilizações, dar-se o nome de história. Portanto, a memória é do indivíduo, porém transcende a individualidade até a coletividade! Analogamente sem memória, sem história.
            Ainda estabelecendo relações lembremos que neurônios são os chips de armazenamento da memória do ser humano. Um neurônio estende-se em sua formação por vários centímetros, interliga-se com outros por substâncias chamadas neurotransmissores. Para cada tipo de atividade e requisição neural existe um neurotransmissor específico ou um somatório destes formando novas substâncias atuantes. Portanto, formação de memória é um processo físico, químico, neuroendócrino e psíquico e algo tão multifatorial não pode ser encarado de forma tão simplista.
            Vários fatores interferem na formação e fixação de memória, transitórios ou definitivos, físicos, mentais ou sociais, porém todos com interferência direta na produção, fixação ou demanda de substâncias neurotransmissoras. Cansaço, stress contínuo, ansiedade, depressão, infecções (AIDS), hipertensão, alterações hormonais (hipotiroidismo) e principalmente alterações genéticas. A experiência que melhor exemplifica a importância dos neurotransmissores na formação de memória talvez seja o parto normal, muito doloroso, porém nem sempre lembrado pela dor, pois essa é bloqueada pela produção de ocitocinas e endorfinas que provocam uma certa amnésia desta hora. Endorfinas que também bloqueiam as fortes dores musculares quando praticamos atividades físicas extenuantes.
            Preservar e proteger  a memória passa então por práticas que pressupõe evitar alcoolismo,  tabagismo, sedentarismo; utilizar alimentos funcionais, protetores e estimulantes do funcionamento intestinal considerado o segundo cérebro por sua vasta capacidade de produção de substâncias neuroativas, tais como alimentos ricos em ômega 3, vitaminas, polifenois, antioxidantes  (lembrar o chocolate amargo, chá verde, o café, o vinho tinto seco).
 Atentar para o streess e sobrecargas emocionais gerenciando expectativas e perdas.
Manter a atividade intelectiva, laborativa, ambiental, a utilidade social,  viver experiências novas formando novas memórias, principalmente as emotivas, e se emotivas, procurar que sejam positivas construtivas e somatórias.
Estabilizar então os múltiplos fatores que interferem na formação e manutenção da memória evitando os entraves que emperram as gavetas dos arquivos de nossas lembranças é um dos mais complexos resgates da geriatria. Bom domingo!

JMS

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