Expectativas e Frustrações
Dr. João Mariano
Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
Freqüentemente na
prática clínica nos deparamos com um quadro subjetivo, porém de suma importância
por tratar-se de agente precursor de várias patologias psico-orgânicas como
depressões, ansiedade, fobias, pânicos entre outras. Trata-se da frustração de
expectativas, o que leva a uma ansiedade antecipatória no sentido da não realização
do desejo projetado.
Não quero aqui
entrar no campo analítico, nem tampouco psiquiátrico, somente proferir a visão
empírica de quem convive quase diariamente com esse quadro.
Que profissional
da saúde não recebeu em seu serviço paciente, comumente de mais idade, com
quadro de melancolia, tristeza e com queixas, quase sempre múltiplas, dirigidas
a seus mais próximos convivas, irmão com irmã, mulher com marido, pais com filhos,
esse o mais comuns em minha rotina.
As variantes são
muitas, porém a essência é quase sempre a mesma, “ meu filho quase não fala comigo”
, “ não presta atenção ao que eu falo”, “ não passa todo dia lá em casa”, “ não me leva para sair ou ir na casa
dele.....”, “ passei o domingo todo aguardado meus netos com um bolo e não veio
ninguém...”, ou ainda “ me arrumei toda,
cortei os cabelos, e meu marido nem viu!”. Todas frases de expectativas não
atendidas que quase sempre geram reação de cumplicidade do interlocutor, e
muitas vezes sentimento agudo de consternação e até pena!?! por parte do
ouvinte motivado a modificar quadro tão triste, na visão do relator.
Diante de tal
quadro como proceder, agir, reagir, cobrar da família uma atitude mais
tolerante? Ou criar todo um artifício protetor ao queixoso, mesmo que violando
a todos mostrar que o convívio é refém dos pedidos e exigências do expectante?
Penso que aqui se
direciona toda a força do ato médico, tentando interferir proativamente na vida
do paciente, levando com postura interativa, participativa, e firme no sentido
de levar o paciente a buscar sua liberdade, independência, identidade, amor
próprio, com conseqüências nítidas na recuperação da saúde como um todo, de
sobremaneira na qualidade de vida, principalmente, no paciente de mais idade.
Claro que não
vamos dizer que não se deve esperar a atenção dos nossos, só não podemos
aceitar que isto seja pré requisito para essa tal felicidade. Se criamos
situações de difícil transposição, para nos sentirmos bem estamos bordejando um
precipício aonde a qualquer tropeço, cairemos num abismo muitas vezes
insuplantável e repetitivo.
Devolver a
autoconfiança tem sido um caminho para se iniciar o processo de recuperação,
que passa pela conscientização do paciente no sentido do que ansiar de pessoas,
situações, atitudes, etc. Preferencialmente orientá-lo, se possível de praticar
a expectativa zero, se nada espero de você, ou de alguma situação o que vier é
lucro e será extremamente gratificante, se você vem sem que te espere, como sou
feliz!
Claro que
expectativa zero não existe, é defesa e doentio, como a expectativa duzentos,
como a de um paciente meu que se frustra diariamente, quando recebe os resultados
das mais diversas loterias, e não alcança
o tão almejado prêmio, para ele não tão importante já que tem uma situação
financeira razoavelmente bem resolvida, bate com a mão fechada sobre a outra
espalmada, profere um “puxa-vida”! Enfático, ficam tristes horas e horas
estudando os volantes dos jogos, buscando um jeito de superar sua pouco prática
mazela.
Outra senhora que
só consegue relaxar quando o filho chega da escola, janta e tranca toda a casa,
situação normal se seu menino, não cursasse uma universidade, fosse casado, pai
de três filhos, empresário com quase meio século de vida. Situações que
prejudicam demais a qualidade de vida do paciente e de seus familiares.
Reduzindo-se um pouco nível de ansiedade produz-se verdadeiros milagres na
qualidade da convivência diária.
Psicoterapia,
antidepressivos, e ansiolíticos nos casos mais graves, mas o que penso que
ajuda bastante é estimular o paciente desde sempre viver sua própria realidade,
sua vida por mais singela e simples que seja é sua, te pertence. Tentar se
inserir, interferir, na vida de outrem, ou do imponderável é colocar em risco o
maior bem que temos, nosso livre arbítrio, nossa liberdade! Viver a vida
encontrando pontos de interseção com a vida de quem você quiser. Para
pensar!
JMS

