sexta-feira, 28 de junho de 2013


Expectativas e Frustrações
Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
 
Freqüentemente na prática clínica nos deparamos com um quadro subjetivo, porém de suma importância por tratar-se de agente precursor de várias patologias psico-orgânicas como depressões, ansiedade, fobias, pânicos entre outras. Trata-se da frustração de expectativas, o que leva a uma ansiedade antecipatória no sentido da não realização do desejo projetado.
Não quero aqui entrar no campo analítico, nem tampouco psiquiátrico, somente proferir a visão empírica de quem convive quase diariamente com esse quadro.
Que profissional da saúde não recebeu em seu serviço paciente, comumente de mais idade, com quadro de melancolia, tristeza e com queixas, quase sempre múltiplas, dirigidas a seus mais próximos convivas, irmão com irmã, mulher com marido, pais com filhos, esse o mais comuns em minha rotina.
As variantes são muitas, porém a essência é quase sempre a mesma, “ meu filho quase não fala comigo” , “ não presta atenção ao que eu falo”, “ não passa todo dia lá em casa”,  “ não me leva para sair ou ir na casa dele.....”, “ passei o domingo todo aguardado meus netos com um bolo e não veio ninguém...”, ou ainda  “ me arrumei toda, cortei os cabelos, e meu marido nem viu!”. Todas frases de expectativas não atendidas que quase sempre geram reação de cumplicidade do interlocutor, e muitas vezes sentimento agudo de consternação e até pena!?! por parte do ouvinte motivado a modificar quadro tão triste, na visão do relator.
Diante de tal quadro como proceder, agir, reagir, cobrar da família uma atitude mais tolerante? Ou criar todo um artifício protetor ao queixoso, mesmo que violando a todos mostrar que o convívio é refém dos pedidos e exigências do expectante?
Penso que aqui se direciona toda a força do ato médico, tentando interferir proativamente na vida do paciente, levando com postura interativa, participativa, e firme no sentido de levar o paciente a buscar sua liberdade, independência, identidade, amor próprio, com conseqüências nítidas na recuperação da saúde como um todo, de sobremaneira na qualidade de vida, principalmente, no paciente de mais idade.
Claro que não vamos dizer que não se deve esperar a atenção dos nossos, só não podemos aceitar que isto seja pré requisito para essa tal felicidade. Se criamos situações de difícil transposição, para nos sentirmos bem estamos bordejando um precipício aonde a qualquer tropeço, cairemos num abismo muitas vezes insuplantável e repetitivo.
Devolver a autoconfiança tem sido um caminho para se iniciar o processo de recuperação, que passa pela conscientização do paciente no sentido do que ansiar de pessoas, situações, atitudes, etc. Preferencialmente orientá-lo, se possível de praticar a expectativa zero, se nada espero de você, ou de alguma situação o que vier é lucro e será extremamente gratificante, se você vem sem que te espere, como sou feliz! 
Claro que expectativa zero não existe, é defesa e doentio, como a expectativa duzentos, como a de um paciente meu que se frustra diariamente, quando recebe os resultados das mais diversas loterias, e  não alcança o tão almejado prêmio, para ele não tão importante já que tem uma situação financeira razoavelmente bem resolvida, bate com a mão fechada sobre a outra espalmada, profere um “puxa-vida”! Enfático, ficam tristes horas e horas estudando os volantes dos jogos, buscando um jeito de superar sua pouco prática mazela.
Outra senhora que só consegue relaxar quando o filho chega da escola, janta e tranca toda a casa, situação normal se seu menino, não cursasse uma universidade, fosse casado, pai de três filhos, empresário com quase meio século de vida. Situações que prejudicam demais a qualidade de vida do paciente e de seus familiares. Reduzindo-se um pouco nível de ansiedade produz-se verdadeiros milagres na qualidade da convivência diária.
Psicoterapia, antidepressivos, e ansiolíticos nos casos mais graves, mas o que penso que ajuda bastante é estimular o paciente desde sempre viver sua própria realidade, sua vida por mais singela e simples que seja é sua, te pertence. Tentar se inserir, interferir, na vida de outrem, ou do imponderável é colocar em risco o maior bem que temos, nosso livre arbítrio, nossa liberdade! Viver a vida encontrando pontos de interseção com a vida de quem você quiser. Para pensar!           
JMS

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