Projetamos e
ansiamos por trocas afetivas menos conflituosas, o convívio, muitas vezes,
sabota essa afetividade, é sobre isso nosso artigo de hoje:
Estelionato Emocional
Qual o tipo de sentimento entregamos em nossas
relações diárias, como encaminhar tão delicada questão com os nossos idosos
dependentes?
Recebo rotineiramente pacientes e acompanhantes para
atendimento, acho sempre importante a participação de parentes, familiares, ou
agregados, que se interessam pela saúde, pelas dificuldades daqueles que me
procuram.
Muito comum também é um tipo de relação conflituosa,
que tanto pode ser do acompanhante para com o paciente, mais freqüente, ou
vice-versa.
Consiste em um comportamento instável, ríspido,
reativo, como se não fizessem aquilo com gosto, mas como uma indesejada
obrigação, permeada de suspiros, impaciência, para com os relatos mais longos e
repetitivos, como se quisessem se desincumbir logo deste fardo!
Permeam-se com um senta, levanta, correções bruscas,
questionamentos de responsabilizações, como “também não pode melhorar, faz o
que bem quer...”, ou “peraí, isso não tem importância, ele não é medico de
olho”, vetando queixas, com uma autoridade que, se irrita a mim, imagina a quem
esta sendo imputada, nestes casos, comumente tomo partido, pedindo para que
permitam-me conduzir a consulta!
De outra forma eventualmente, são os próprios que
intimidam seus acompanhantes, repelindo apartes, recusando auxílios muitas
vezes pertinentes, de forma, deselegante e as vezes agressiva, ainda bem que
este tipo de comportamento, não é regra, e sim exceção! Porque isso ocorre e
como tentar evitar é o que tentaremos abordar neste artigo!
A doença per si, a dependência motora, ou
financeira, a cronicidade de quadros e a manutenção de posições conflitantes,
muitas vezes anacrônicas, ou de difícil sustentação, são motivos geradores de
conflitos! A dificuldade de compreender e aceitar as mudanças, limitações e as
recompensas, melhoras flácidas, geram
frustrações, que projetam responsabilidades, culpas, com revanches e vendetas
mesquinhas diárias, seguindo ao massacre da convivência!
Relações
humanas desde que o mundo é mundo, baseiam-se em permuta de sentimentos, os
doadores e os receptores, que sobrepõe e sugam aqueles que se permitem doar, um
não existe sem o outro, porem, dependendo da intensidade podem causar danos
psíquicos, e em casos extremos, ate físicos!
A subserviência,
é motivo e motor para o domínio ser exercido, aquele que se dispõe a servir, na
pratica, se realiza com isso, muitas vezes é considerado, fraqueza ou que
outros se aproveitam, mas no fundo é consentido, consciente ou inconscientemente.
Dependentes subjugados, podem tornar-se provedores
dominadores, quando instados a exercer tal papel, ou seja, agora é minha vez!
Algumas vezes em casos, limítrofes a patologia, as
pessoas perdem a capacidade de doar um sentimento leve, restaurador e
distribuem um misto de magoas e angustias entremeados de culpas e responsabilizações
vãs, como a dizer “olha o tempo que estou perdendo com você”!
Muito comum em pessoas que projetam relações ideais
e recebem relações reais, que obviamente não lhes satisfazem, causando
decepções em cascata, tornando principal investidor do capital emocional, da
conjunção entre duas pessoas. Obrigado, dentro da relação a dar algo, sem ter o
que dar, começa a se inquietar, impacienta-se, irrita-se até com a respiração,
daquele que outrora fora seu objeto de adoração, embora projetado, implica e
começa a procurar e sublinhar defeitos toleráveis e tornar nítidos, os mais
marcantes.
Estelionato emocional, “prometeu”, mas não consegue
entregar, tem dificuldade em manter em primeiro plano o amor!
Neste ponto a
convivência esta comprometida, sejam, pais e filhos, cônjuges, ou simplesmente
cuidadores.
Hora
de repensar se há como reparar ou se vai seguir, fornecendo aos outros os
restos dos sentimentos que já não suporta reter, e avaliar se ocorre apenas com
uma pessoa especifica, que deva ser afastada do convívio, ou se é comportamento
recorrente, e quem precisa de reparo é você.
Preocupa quando este comportamento é direcionado a
um incapaz, crianças muito jovens ou idosos muito velhos e senis, pois, não
podem entender nem se defender, nas crianças criam-se traumas muitas vezes
irreparáveis de rejeição, ou redirecionamento afetivo!
Nos gerontes senis, observar apenas se houver
agressões físicas, raras, mas que ocorrem, nos não senis valorizar queixas e
alterar responsáveis quando possível!
Quase todos nós em algum momento de nossas vidas,
direcionamos a alguém um sentimento menos nobre, mas os sistemas de reparo
devem estar ativados, para que não virem um modo de ser!
O exercício prazeroso da convivência com a
incondicionalidade do amor, podem ser a saída, para esses males, pois, como
dizia o poeta “é preciso amar, como se não houvesse amanhã, pois se parar pra
pensar...”!!
JMS
