sexta-feira, 21 de março de 2014



Testamento Vital

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cardio Geriatra
@no_formol

“Quando eu morrer, não quero choro nem vela, quero uma fita amarela, gravada com nome dela...”
Durante toda vida temos o livre arbítrio, porque então não mantê-lo no final da vida, porque quem decidiu a forma de viver, não decidir a forma de morrer!
Agora podemos fazer isso!
Importante se informar sobre o que agrada ou não, sobre o que é mais conveniente, ou o que não queremos admitir.
Qual sua opinião sobre permanecer em estado vegetativo, irreversível?
Qual sua opinião sobre ocupar um leito em UTI, por tempo indeterminado?
Alimentação enteral, parenteral, gastrostomia, entubação, ressucitação pós parada cardio respiratória?
Imobilização em leito? Sondas naso gástricas, vesicais, de alivio?
Comprometimento financeiro familiar para manutenção e postergação do fim?
Doação de órgãos?
A resolução 1995/12 de 30/08/12 do CFM, determina que todo cidadão tem o direito de decidir sobre os procedimentos a serem adotados em sua hora final, desde que registrados ou testemunhados por pessoas idôneas!
Inclusive já existem sites onde se pode deixar registrado as diretivas antecipadas!
Refere a resolução que pode o cidadão, “definir diretivas antecipadas de vontade como conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestados pelo paciente, sobre cuidados e tratamentos, que quer, ou não receber no momento em que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade”
Designação por escrito, ou nomeando um representante, desde que de acordo com as normas vigentes no Conselho Federal de Medicina. Inclusive contra vontade de familiares. O médico pode anotar no prontuário clinico, essas diretivas.
Caso não fique registrado e estando o médico ou equipe assistente em conflito ético, ou quando não haja consenso entre familiares, deve o profissional recorrer e embasar suas decisões e escolhas, pós consulta ao Comitê de Bioética ou Conselho de Ética Medica da instituição, ou mesmo ao Conselho Regional de Medicina!
Informar e perguntar as pessoas sobre suas vontades finais, pode reduzir muito sofrimento e dispêndio emocional e mesmo financeiro a familiares intimidados e fragilizados por processos longos e muitas vezes obscuros e de difícil manejo até mesmo por profissionais experimentados!
Jovens, adultos e idosos, de ambos os sexos, necessitam se manter orientados para prover essas informações que serão de grande valia em momentos limítrofes!
Sugiro que se ilustrem pesquisando, visitando parentes e amigos em hospitais, e exercendo sua cidadania ao opinar.
Tema judicial que como a eutanásia, gera muita polemica, aqueles que pensam que condições porvir podem alterar dramaticamente o resultado de tratamentos similares.
Penso que o bom senso deve passar sempre pela preservação da dignidade humana e por vontades manifestas. Quando já não se pode mais devolver uma sobrevida digna é hora de deixar a natureza seguir seu curso!
Lembro uma história de um paciente que chegou a um consultório médico, aos 104 anos! Lúcido! Hígido para a idade! Pediu ao médico que queria viver ao menos mais 10 anos!! O médico experimentado respondeu que ele pedisse a Deus aquele acréscimo em seu prazo de validade! Solicitou ainda de maneira muito clara, verbalmente que não gostaria de ser internado e ficar sob tubos, sondas, UTIs, etc. Gostaria de perecer, quando a hora chegasse, na sua cama, em casa!
Seguiu-se o acompanhamento em consultas e visitas regulares, até que aos 109 anos!!! Certo dia o filho chama o médico à residência, pois seu pai estava passando mal!
O médico fez a visita, passa um analgésico suave, em gotas, e disse ao filho “espere umas duas horas que ele vai ficar bem”! Fato após menos de uma hora o filho liga indignado, dizendo que o pai havia morrido. O médico o acalma, lamenta e pede que passe em outra hora no consultório para conversar.
Quando o filho, um senhor quase chegado aos 80 anos, chega, vai logo dizendo: “Poxa doutor nossa família confiava tanto no senhor e nos decepcionamos muito...! O Sr disse que ele ia ficar bom!”
Que responde: “Lembre-se de nossa primeira consulta o que me foi pedido... E eu disse que ele ia ficar bem, passou rápido, em casa, sem dores ou sofrimento, aos 109 anos, o que mais esperar?”
O filho reconhece, tem a dignidade mesmo na dor de admitir, se desarma e começa a aceitar a atitude do profissional!
Bertold Brecht “Mentes lúcidas, morte súbitas...”
O Testamento Vital vem para evitar essas arestas.
Em tempo o Testamento Patrimonial, também é um instrumento preventivo para preservação de união familiar, redução de desavenças e economia de tempo e dinheiro nesses espólios infindáveis e traumáticos! 
 “Quando eu morrer me enterre na Lapinha, calça, culote, paletó almofadinha...”
JMS

sexta-feira, 14 de março de 2014



O Ambiente do Idoso

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol

 
 

Alojar o idoso parece fácil, e só coloca-lo a residir em qualquer lugar e achar que está protegido, esta tudo resolvido, não é bem assim!
A ergonomia da morada dos idosos é matéria de estudo, ao qual devemos ter muita atenção!
A saber: A casa deve ser ampla, arejada, desimpedida em seus trajetos, desentulhada, hábitos comuns a quem já viveu muito e acumulou muitas coisas!
A casa ventilada evita acúmulos de odores em pacientes portadores de incontinências, por exemplo.
Evitar locais barulhentos, que possam estressar e confundir aos idosos.
O piso deve ser antiderrapante o menos escorregadio possível, uniforme, regular e monocromático, para evitar falsas sensações de desníveis.
Organização também é fundamental no lar do mais antigo, lembre-se que a maioria já terá desenvolvido ao menos uma perda fisiológica de memória, e a manutenção de cada coisa em seu lugar auxilia na busca e localização por parte dos mesmos.
Evitar tapetes em toda casa, estilo clean, limpo despojado, e com poucos móveis, afastados de portas ou corredores, evitar cantos vivos, pancadas e quedas próximo a estes podem causar danos graves.
Poltronas altas,  individuais, as muito baixas dificultam o idoso a se levantar. Evitar o uso de polidores nos móveis que os deixem escorregadios, e reflexivos, causando confusão visual.
Camas de acordo com a altura do usuário, com barras de apoio próximas quando necessárias, trancas que possam ser abertas em ambos os lados, interruptores próximo a cama, e em ambas as extremidades das escadas, que quando inevitável, devem ter corrimão bilateral, com espaço de sobra ao final para o idoso se estabilizar ao chegar no alto.
Nos banheiros, o vaso sanitário deve estar mais elevado, auxiliando no movimento de levantar-se.
O uso de barras de apoio devem estar próximas ao vaso e dentro do box, em alturas variáveis e de acordo com a de cada paciente.
Na cozinha, torneiras com alavancas devem ser consideradas, bancadas, fogão e pias a  aproximadamente 80 cm de altura, permitem uma postura mais adequada ao geronte. Armários de fácil acesso, principalmente para os utensílios mais utilizados. Utensílios que dividam o peso com alças laterais e longas, para evitar queimaduras, assim como luvas térmicas! 
Áreas de serviços e quintais bem resolvidos, com poucos declives, ou aclives, preferencialmente sem degraus, com depósitos de fácil acesso, eletrodomésticos revisados sem fios desencapados, e a mão. Varais de teto individuais para reduzir o peso no manuseio. Tábua de passar em altura e posição segura de acordo com o tamanho de cada usuário. Deposito de roupas, limpas, sujas etc em cima de bancos onde o idoso não necessite se abaixar.
Na área externa, corrimões, que ajudem nas caminhadas e proximidade ao meio ambiente, nos jardins evitar muretas fora do campo de visão que possam levar a quedas. Evitar o uso de produtos químicos, de limpeza ou venenos que possam causar irritações ou intoxicações.
A iluminação deve ser vasta todo o tempo, durante o dia o mais natural possível, a noite luz farta e indireta, para evitar ofuscamento, sensores de presença devem ser considerados, luzes de vigília facilitam o trajeto do quarto para o banheiro ou cozinha durante a noite.
Colocar lembretes em geladeiras, telefones na cozinha, banheiros , pode ajudar em uma urgência.
Manter níveis rígidos de higiene auxilia no controle de pragas e infestações ajudando na prevenção de infeções.  A presença de animais de estimação, quase sempre benéfica aos idosos, acresce os cuidados de limpeza inerentes a cada criação, atenção redobrada! 
JMS

sexta-feira, 7 de março de 2014

Números da Morte



Números da Morte

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol

Quando se envelhece, e se morre, diz-se que morreu de velho, porem não é bem assim, existem varias causas para partida, sobre esses números falaremos hoje!  
Participando recentemente de um evento de lançamento de um novo medicamento para Diabetes, ouvimos o presidente da Sociedade de Brasileira de Endocrinologia, angustiado, com crescente aumento da ocorrência de Diabetes no Brasil, e citou números que utilizo neste artigo. Discutiu-se então, como possuímos tantos novos medicamentos e sempre vemos aumentar a mortalidade da doença?
Um aparte me impressionou,  quando se sugeriu que a solução seria angustiar mais o doente, levando, a uma maior participação/responsabilidade, dele com sua doença!
Angustiado está o paciente quando aguarda atendimento medico na fila dos SUS, do medico do convenio, ou quando espera vaga na UTI!!
Angustiado fica o paciente quando tem de negociar o custo de sua receita na farmácia, priorizando o que vai usar, ou vai ter de deixar para o final do mês!
Penso que a grande dificuldade de se melhorar nossos números é levá-los a sério e formularmos e cumprirmos uma real política de Saúde Pública!
Vamos ver números!
Este artigo, estará desatualizado logo após sua publicação, talvez enquanto estiver sendo impresso, pois, os números são tão avassaladoramente dinâmicos e as estatísticas citadas mudam numa velocidade tão rápida, que é bastante inviável, que esses dados resistam por muito tempo!
O Ministério da Saúde adverte o Acidente Vascular Cerebral, é a doença que mais mata no Brasil, especialmente a pessoas acima de 65 anos! A cada 5 minutos uma pessoa morre desta patologia, totalizando, mais de 100.000 óbitos ao ano! A grande campeã mundial, ainda é o Infarto do Miocárdio, que segundo o MS, acomete 900.000 pessoas, e somente 2/3 se restabelecem, gerando mais de 300.000 mortes por ano, no Brasil!
Segundo dados da OMS, a cada dois minutos, morre um brasileiro por hipertensão arterial, e suas complicações,  aproximadamente, 17 milhões de portadores com 300.000 mortes/ano!
Se o caso é a Insuficiência Cardíaca, relaxe,  ocorrem “apenas” a cada 11 minutos,  são “meras” 54.000 mortes por ano, em um universo de 6.5 milhões de doentes!
Nas doenças renais os números são também bastante desanimadores, houve um aumento de 38%, dos casos de Renais Crônicos, nos últimos 10 anos segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia, hoje com aproximadamente 92.000 doentes, e 16.500 mortes anuais!
A cada 8 segundos uma pessoa morre por complicações da Diabetes Mellitus, e mais da metade dos diabéticos não sabem que são doentes, e dos que sabem apenas 25% tem acesso ou admite o tratamento!
O câncer é responsável por quase 14% das mortes no Brasil, é segunda doença que mais mata em nosso meio, sendo responsável por mais de 120.000 óbitos no ultimo ano!
Como um grande país, temos números astronômicos de morbi-mortalidade, sem citarmos os acidente de transito, e as perdas relacionadas a drogas licitas ou ilícitas!
Números servem para demonstrar o quanto há para fazer e investir em saúde, gerando uma real universalização e democratização de acesso não só aos serviços, como também aos tratamentos mais novos e modernos equilibrando as chances de recuperação de pacientes, independentemente de seu poder aquisitivo e de sua classe social, pois dinheiro há é só destinar as necessidades e prioridades, desviando do desvio!
A justificativa de que é caro é questão de óptica, uma política de prevenção, nunca é cara! Investir sem angustiar e/ou culpar o doente pela doença, ou sem parecer fazer favor, quando fornece um tratamento mais caro a quem necessite!
Cumprir a Constituição já bastava!
Mas pra quem acha saúde cara, vai meu critério de caro!
Um parlamentar federal brasileiro, custa aos cofres públicos, segundo matéria do Bom Dia Brasil, a bagatela de R$ 11.545,00 ( onze mil, e quinhentos e quarenta e cinco reais), por cada MINUTO trabalhado, isso mesmo, para cada sessenta segundos do trabalho!!
A ONG Transparência Brasil, fez o calculo; e as Assembléias Estaduais, e Câmaras de Vereadores não ficam muito atrás!!  Percebe agora porque nossa saúde publica anda tão mal? Temos o Parlamento mais caro do planeta, mais que o dobro do segundo colocado!! Caso extrapolemos ao Poder Executivo, e ao Judiciário, certamente acharíamos parte da verba tão escassa na Educação, Saúde, Segurança Pública....! Priorizar o sentido da verba arrecadada!
Contando que hajam apenas gastos lícitos, “pois vivemos num mundo ideal, sem  nenhum indício de desvios”, não seria muito difícil conseguir reduzir os números do inicio deste artigo!            
JMS