sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Saudade, saudosismo e otimismo

Dr João Mariano Sepúlveda
Cardio Geriatra
@no_formol
www.medicareclinica.com.br


Saudade, saudosismo e otimismo   

A saudade é uma palavra que só aparece em nossa língua, em nenhum outro idioma ela consegue ser expressa. Sente-se saudade de  quase tudo que nos foi prazeroso, ou que nos causou emoções positivas e dizemos não ter nem saudade daquilo que nos foi agressivo.
A saudade vem da fixação da memória seletiva e agradável de experiências indeléveis que se fixam na mente qual uma boa flagrância em pele fresca.
Lembrar com carinho de um ente ausente, das conversas, dos toques de suas manias! Lembrar das turmas das escolas por quais passamos, dos colegas mais chegados, aos quais nos associávamos para traçar planos inexequíveis. Da professora, da forma e da paz das cidades. Lembrar dos cheiros e dos gostos de nossa infância, e juventude, do inicio de um namoro, dos nascimentos dos filhos, netos... Lembrar! Sentir saudade e voltar a realidade. Sentimentos normais e produtivos já que nos embasamos naquilo que vivemos para determinar nossos rumos futuros. Boas práticas de memória!
Contudo existe um momento no envelhecimento humano onde começa a ocorrer uma forte exacerbação deste sentimento, levando a crença de  que o bom e bem, foi o que já passou, tornando o presente refém de uma projeção distorcida, de que o futuro não será capaz de superar o passado na qualidade de realização de bons sentimentos , lembranças e gratificantes experiências. Existia em cima disto até uma personagem humorística de Chico Anísio, que iniciava seu bordão recitando “ em 1927 quando eu era menino em...” Ao qual cito para mostrar o quanto pode se tornar repetitivo, caricato, e de difícil convívio aquele que migra para o saudosismo patológico, e quanto tempo estará ele perdendo no vivenciamento do presente reduzindo as chances de um futuro com maior possibilidade de sucesso. O saudosista patológico não é uma pessoa ruim de conviver, no início pensamos que tratam-se de observações pertinentes, como “ há, o queijo de hoje em dia, não se compara com o que era produzido em minha terra, quando eu era pequeno...” Normal, mas na sequência o assunto muda para o futebol, e lá vem, “esse time é bom,  mas bom mesmo era o Flamengo de Zico de 1980”, com o que concordo, porem não comungo com os vatícinios peremptórios de quem não consegue, exercer o otimismo de que algum dia veremos um time melhor, um gosto melhor, uma cidade menos violenta e mais humana com uma vasta ciclovia e pistas de caminhadas arborizadas, devidamente protegidas e sinalizadas onde, o pedestre terá segurança pois os governantes terão investido maciçamente em educação de base e de transito e os recursos  poderão ser  direcionados para o bem estar geral da população.
Formulei aqui uma antítese ao saudosismo, embora tanta expectativa otimista envolvendo o poder publico, também tem um que de patológico! Mas não custa sonhar!
O geronte tende a um pessimismo por avaliar que seu tempo esta por se esgotar, ou o que ele faz já não importa, e sim o que ele fez é que teve valor. Está ligado a personalidade do idoso e também ao seu projeto de envelhecimento, e a manutenção de sua Utilidade Social, ser importante, mesmo após a cessação de sua produtividade.
Algumas pessoas antes mesmo de chegarem a terceira idade já iniciam a prática do saudosismo renitente, sofrem de progeria ( patologia onde ocorre uma precocidade do envelhecimento ) localizada na esperança. Não se pode negar a senitude como fator de reflexões e questionamentos, porem fincar o pé no passado como única bandeira do que foi bom é negar chance ao futuro de se realizar em sue plenitude!
O Geriatra é por si um otimista e esperançoso, pois, se não abraçaria outra especialidade, assim sendo, quando me defronto com os tipos citados neste artigo, trato de mostrar que o passado foi bom e profícuo, a tal ponto de estarmos falando dele, mas já passou, que o presente, é só um momento, ops, já passou, e o futuro, este sim por seus mistérios, surpresas, e expectativas projetadas pode vir a virar um novo passado, inesquecível!             

JMS

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