Cardio Geriatra
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Saudade,
saudosismo e otimismo
A saudade é uma palavra que só aparece em nossa língua, em
nenhum outro idioma ela consegue ser expressa. Sente-se saudade de quase tudo que nos foi prazeroso, ou que nos
causou emoções positivas e dizemos não ter nem saudade daquilo que nos foi
agressivo.
A saudade vem da fixação da memória
seletiva e agradável de experiências indeléveis que se fixam na mente qual uma
boa flagrância em pele fresca.
Lembrar com carinho de um ente
ausente, das conversas, dos toques de suas manias! Lembrar das turmas das
escolas por quais passamos, dos colegas mais chegados, aos quais nos
associávamos para traçar planos inexequíveis. Da professora, da forma e da paz
das cidades. Lembrar dos cheiros e dos gostos de nossa infância, e juventude,
do inicio de um namoro, dos nascimentos dos filhos, netos... Lembrar! Sentir
saudade e voltar a realidade. Sentimentos normais e produtivos já que nos
embasamos naquilo que vivemos para determinar nossos rumos futuros. Boas
práticas de memória!
Contudo existe um momento no
envelhecimento humano onde começa a ocorrer uma forte exacerbação deste
sentimento, levando a crença de que o
bom e bem, foi o que já passou, tornando o presente refém de uma projeção
distorcida, de que o futuro não será capaz de superar o passado na qualidade de
realização de bons sentimentos , lembranças e gratificantes experiências.
Existia em cima disto até uma personagem humorística de Chico Anísio, que
iniciava seu bordão recitando “ em 1927 quando eu era menino em...” Ao qual
cito para mostrar o quanto pode se tornar repetitivo, caricato, e de difícil
convívio aquele que migra para o saudosismo patológico, e quanto tempo estará
ele perdendo no vivenciamento do presente reduzindo as chances de um futuro com
maior possibilidade de sucesso. O saudosista patológico não é uma pessoa ruim
de conviver, no início pensamos que tratam-se de observações pertinentes, como
“ há, o queijo de hoje em dia, não se compara com o que era produzido em minha
terra, quando eu era pequeno...” Normal, mas na sequência o assunto muda para o
futebol, e lá vem, “esse time é bom, mas
bom mesmo era o Flamengo de Zico de 1980”, com o que concordo, porem não
comungo com os vatícinios peremptórios de quem não consegue, exercer o otimismo
de que algum dia veremos um time melhor, um gosto melhor, uma cidade menos
violenta e mais humana com uma vasta ciclovia e pistas de caminhadas
arborizadas, devidamente protegidas e sinalizadas onde, o pedestre terá segurança
pois os governantes terão investido maciçamente em educação de base e de
transito e os recursos poderão ser direcionados para o bem estar geral da
população.
Formulei aqui uma antítese ao
saudosismo, embora tanta expectativa otimista envolvendo o poder publico,
também tem um que de patológico! Mas não custa sonhar!
O geronte tende a um pessimismo por
avaliar que seu tempo esta por se esgotar, ou o que ele faz já não importa, e
sim o que ele fez é que teve valor. Está ligado a personalidade do idoso e
também ao seu projeto de envelhecimento, e a manutenção de sua Utilidade Social,
ser importante, mesmo após a cessação de sua produtividade.
Algumas pessoas antes mesmo de
chegarem a terceira idade já iniciam a prática do saudosismo renitente, sofrem
de progeria ( patologia onde ocorre uma precocidade do envelhecimento )
localizada na esperança. Não se pode negar a senitude como fator de reflexões e
questionamentos, porem fincar o pé no passado como única bandeira do que foi
bom é negar chance ao futuro de se realizar em sue plenitude!
O Geriatra é por si um otimista e
esperançoso, pois, se não abraçaria outra especialidade, assim sendo, quando me
defronto com os tipos citados neste artigo, trato de mostrar que o passado foi
bom e profícuo, a tal ponto de estarmos falando dele, mas já passou, que o presente,
é só um momento, ops, já passou, e o futuro, este sim por seus mistérios,
surpresas, e expectativas projetadas pode vir a virar um novo passado,
inesquecível!
JMS
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