sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


Conflito de gerações

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
www.medicareclinica.com.br

O título deste artigo não remete a adolescentes problemáticos e seus pais inseguros e reféns, desenvolvo esse tema, para pais e filhos, que têm dificuldade de se relacionarem, e, por conseguinte, se compreenderem em idades maduras, quando os filhos passam ou tentam passar a apoiar e/ou cuidar de seus pais, ou como um todo de sua geração imediatamente superior, tios ou até mesmo avós!
Teimosos contumazes, os gerontes não cedem a intransigência crônica de filhos impositivos, que escudados com eu sei o que é melhor para você, justificam suas ações em “boas intenções”!
-Papai precisa ir ao médico, mamãe vai se operar, com um médico muito mais famoso que o dela, titia tem que trocar seu remédio de pressão...
O caldo de cultura para o confronto esta formado, não houveram as  consultas, e convencimentos adequados para que se consiga a cumplicidade do principal interessado. O idoso se sente desprestigiado, vê seu livre arbítrio, sua independência subjugada e isso é devastador ao seu ego, já fragilizado pelo processo de envelhecer.
-Se já não posso comer o que quero, não posso sair quando quero, se muitas vezes dedico meus dias a cuidar de seus filhos, sua casa, se sou eu quem procura e orienta a sua empregada, porque, que na hora que digo que ela não é boa, minha opinião não vale? Porque que quando meus netos não me respeitam, meus filhos ficam contra mim? Pra cuidar eu presto, para impor o respeito não? Quem minha nora pensa que é para gritar comigo?
-Moro em outra cidade e meu filho insiste que eu me mude para a sua cidade, para ficar próxima, porque não se mudam eles para perto, ou porque não podem passar mais tempo em minha casa? Gosto mesmo é do meu canto!
-Construí uma linda clinica com que há de melhor para minha filha recém formada, e ela preferiu se associar a um ex-professor e montou outra, me forçando a um gasto muito maior, e deixando a que eu fiz para ela sem serventia, o que eu fiz de errado?!?
Todos estes relatos e citações são extraídos do dia a dia em nosso serviço, muito resumido e depurado, pois se fossemos citar tudo que ouvimos nestas relações, qualquer espaço seria pequeno! 
Esforço sem consenso, pode levar a culpas, perdas e danos nas relações entre pais e filhos!
Outra situação delicada é a cobrança da fatura de relações conflituosas na juventude, quando o idoso já está senil ou pré senil e sem condições de se defender, parece desumano, mas não é raro filho(a)s, que chegam a dizer, quando “estava bem, vivia com raparigas”, ou ainda, “ela batia muito na gente”.... Tomo estas atitudes como covardia, tanto as dos pais contra os filhos, e vice –versa!  Embora compreendendo práticas em outras épocas, sua manutenção e perpetuação são injustificáveis!
Por outro ângulo de se observar, não é incomum, filhos que se queixam que seus idosos comem o que não devem, escondido, que se furtam a fazer seu asseio de forma adequada, que não cumprem as orientações de seus médicos e que se negam a se submeter a determinações, que eles deixam em caso relativas a casa, as crianças, as comidas....! Ufa!
Conviver, significa viver com, junto, próximo, participando um da vida do outro, mas não vivendo a vida do outro, penso que a grande falha está na tentativa de se tentar viver a vida do outro, não respeitando os limites naturais da individualidade, e esta invasão de privacidade, quando ultrapassa a tênue linha que separa a vida de um neto, da de seu avô, de uma irmã, da de seu irmão, é agente desagregador familiar, e deve ser repensado!
Embora possa ser resolvido com a prática regular do diálogo, não se deve descartar um terapeuta familiar, que pode agir como um mediador!
Exercer muito amor familiar, sempre praticando o perdão e não levando para frente mágoas que possam ser resolvidas apenas com o exercício da compreensão, entre partes que possivelmente e seguramente se amam muito e devem  portanto,  se respeitarem na mesma proporção!
Amor sem respeito em qualquer relação não é amor, é posse!
Respeito como regra, compreensão como meio, projeção no qual um deve se colocar no lugar do outro e mesmo em condições de risco, quando lúcidos o livre arbítrio como direito final na forma de viver ou morrer do idoso!

JMS

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