sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Mobilidade urbana do geronte


Mobilidade urbana do geronte

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol

Nossas cidades sob a égide do conceito do compromisso ambiental, são um fracasso sob o ponto de vista da mobilidade dos idosos! Cidades de clima privilegiados, não dão aos seus cidadãos o direito ao desfrute!  
Recentemente consultado sobre até que idade seria lícito o idoso dirigir automóveis, resolvi aprofundar pesquisas e entrevistas com pacientes, sobre suas dificuldades de locomoção e acessibilidade!
Engarrafamentos, dificuldades de estacionamento, acessibilidade, a falta de respeito e preconceito aos mais idosos ao volante, tem sido queixas freqüentes dos idosos condutores!
Lembro sempre que não há idade definida para o idoso parar de conduzir auto motivos, impera como sempre o bom senso! Quanto menor o grau de comprometimento da saúde do idoso, maior a possibilidade dele se manter na ativa!
O uso de motocicleta é raro mas existe, porem este transporte até mesmo para os mais jovens não é recomendado, para o idoso nem se fala!
A utilização da bicicleta é sonho de muitos idosos hígidos, porem o medo do transito e dos ladrões reduz em muito esta empolgação!
O transporte coletivo não é adaptado as necessidades dos mais velhos, alem de ser muito raro, espera-se até quarenta minutos por um coletivo e quando chega na maioria das vezes vem lotado, o que intimida ao geronte!
Os taxis são caros para uso rotineiro!
Conversando sobre porque o /a Sr./Sra. ainda dirige nesta idade? Diversos me disseram ser muito melhor e mais seguro, até mesmo para se chegar ao local onde é possível caminhar!
Muitos me disseram caminharem nos estacionamentos de supermercados e em seu interior! Outros me informaram que usavam o interior dos shoppings! Alguns, as praças, os parques de seus bairros, em grupos, outros solitários, quase todos se vestem adequadamente, e usam calçados apropriados! Poucos utilizam bengalas e um usa um cajado de peregrino, que me diz servir também de arma de defesa contra intrusos!
Aqueles que caminham me citaram a segurança como principal fator limitante de sua atividade física, quer seja pela freqüência de meliantes, desocupados, intimidando e muitas vezes atacando-os e também as condições da estrutura das calçadas e mais recentemente, as ruas, para onde muitos migram ao caminharem para evitar os constantes desníveis, ou a inexistência completa de calçadas!!
Quando caminham nas ruas estão sujeitos a atropelamentos, ou lesões devido a proliferação de buracos nas vias publicas!
Enfim quando pedimos a um paciente que faça atividade física e preferencialmente que faça caminhadas diárias, na verdade estamos assumindo muitas vezes a cumplicidade sobre uma anunciada tragédia urbana! Se orientarmos para o uso de bicicleta, solução ambiental perfeita, então é assassinato na certa!
Onde esta o direito e o respeito aos cidadãos de nossas cidades? Como podemos tornar mais fácil a vida dos moradores, se o simples direito de ir e vir é totalmente comprometido?!    
Mobilidade urbana é matéria da mais alta ficção científica, não existe! A confusão grassa como um legado sem responsáveis, planejamento, sustentabilidade,  compromisso ambiental, permeabilidade e capilaridade urbana, são temas tabus e desconhecidos dos envolvidos, não dá para fazer, não há dinheiro! Nem muito menos vontade política!
A autoridade que existe, seja nas cores caqui, azul, marrom, ou amerela, não é de apoio, nem muito menos educativa, é sempre punitiva e arrecadatória, multas fazem caixa para gerencias amadoras e tratam os condutores de veículos como meliantes! Aliás como a própria Receita Federal, que trata contribuintes como sonegadores, enquanto subleva sonegadores, por processos mal conduzidos!?!  
Mágicos de plantão num repente tiram um coelho da cartola, fazem uma maquiagem, muros, muretas, obras em sua maioria sem licitação e previsão orçamentária,  e eis que surge um novo monstro em nossas ruas  estreitas e mal conservadas, com pontos de ônibus descobertos, sinais desligados, insegurança, gargalos e pontos de estrangulamento sabidos e freqüentes, que persistem anos e anos sem  solução!
As orlas,  lindos cartões postais, lembram a devastação da Normandia pós dia D!
Enfim, amanhã quando for orientar a um paciente a atividades físicas nas ruas o farei e ao final direi, por sua conta e risco!    
Fisiologismo, inércia, cooptação, e a predileção pelo meu em detrimento do nosso é predicado da classe política quase sem exceção, mas a tolerância e a conivência  não devem ser nossa postura, pois a falta da cobrança nos torna cúmplices de más  gestões! 
Compromisso não é dizer, é fazer, e a renúncia muitas vezes é a solução mais digna, do que a teimosa persistência da incompetência! A desgraça faz sentirmos saudades da miséria, cuidado! Aquilo que passou não é menos responsável, por estar sem poder! Importa saber quem vai se comprometer com seu direito?              
JMS


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