Dr João Mariano Sepúlveda
Cardio - Geriatra - Ortomolecular
@no_formol
www.medicareclinica.com.br
Assim termina a carta de despedida
de um dos maiores pensadores da neurociência de nosso tempo, autor de best sellers, como O
homem que confundiu sua mulher com um chapéu e Tempo de despertar, sucesso do cinema, com Robert de Niro e Robin
Williams, nos papéis principais, entre muitos outros títulos, Oliver Sacks, coroou sua passagem pela
efeméride deste projeto chamado vida, com uma ode ao período que lhe foi concedido.
Começo de onde ele terminou para
fazer aquela incomoda pergunta, que repito aqui vez por outra, o que andas
fazendo para tornar sua estada, melhor, mais motivante, mais profícua? Quão bem fizeste hoje, que possa ter te
deixado mais leve?
O que doou de seu, quanto de peso de
tuas posses abriste mão para aliviar a carga da caminhada?
Quais movimentos têm feito, para
tornar sua vida um privilegio e uma aventura?
Aproximou-se de seu filho ausente,
perdoou aquele irmão com quem estivesse intrigado, chamou sua nora para
conversar?
Perdoou a si mesmo das lides diárias?
Quais gestos têm aproximado e quais têm afastado, dos outros e de você
mesmo?
Seu caminho tem sido ético, ou isso
é adjetivo para ser cobrado apenas dos outros? Tem levado vantagens ou tem
praticado a justeza?
Fez uma viagem? Uma árvore ou livro,
um projeto por alguém?
Dedicou algum tempo a um voluntariado?
Quando vejo pessoas que envelhecem,
me pergunto, de que forma estão encarando essa jornada, como recebem o ônus de
envelhecer, quais bônus valorizam para equilibrar essa equação?
Sempre há algo, que possamos valorizar
e contrapor a inexorabilidade da idade.
A sabedoria e a paciência veem
como o grande prêmio da maturidade. A frugalidade,
em todos os sentidos, fazer mais com muito menos, a começar dos proventos é
outro atributo que adoro reparar, a sagacidade,
quando captam em uma contração de face toda a informação, a antevisão premonitória dos mais
sensíveis, enfim é só reparar que tem muito bônus.
Difícil é quem atravessa a cancela
dos gerontes, reparar coisas boas sob avalanche de achaques. Muito mais difícil
é promover equilíbrio, em desvantagem, com sofrimento e dor.
O exemplo de hoje foi um pioneiro em
seu tempo, homossexual de tempos primordiais, quando já era difícil viver, que
dirá se assumir, lutou desde cedo com o preconceito aberto da própria mãe
contra sua opção. Investiu decididamente nos estudos da neurociência onde foi
um expoente.
Finalmente vitima de uma recidiva de
um câncer, nos brinda com a gratidão daqueles que saborearam essa existência até
seus últimos momentos, quando poderia estar se lamentando e queixando da má sorte.
Importa nos momentos em estamos a
fraquejar, achando nossas dores superiores as de outros, e assumimos o
protagonismo do sofrer.
Passamos muito tempo a cuidar do
próprio umbigo, reparando muito pouco com as lides alheias, com nosso projeto
de bem fazer, ou bem viver! Sofremos da necessidade da posse, e da autoria da
opinião, quando o que realmente importa é a divulgação e o compartilhamento de ideias
e ideais. Angustias vãs!
Passaremos.
Fração literal: “Nos últimos dez
anos mais ou menos, tenho ficado cada vez mais consciente das mortes dos meus
contemporâneos”.
Minha geração está de saída, e sinto
cada morte como uma ruptura, como se dilacerasse um pedaço de mim mesmo.
Não vai haver ninguém
igual a nós quando partirmos, assim como não há ninguém igual a nenhuma outra
pessoa. Quando as pessoas morrem, não podem ser substituídas. Elas deixam buracos que não podem ser preenchidos,
porque é o destino - o destino genético e neural - de cada ser humano ser um
indivíduo único, achar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua
própria morte.
Não posso fingir que não estou com
medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Amei e fui amado; recebi
muito e dei algo em troca; li, viajei, pensei e escrevi. Tive uma relação com o
mundo, a relação especial de escritores e leitores.
“Acima de tudo, fui um ser
senciente, um animal pensante nesse planeta maravilhoso e isso, por si só, tem
sido um enorme privilégio e aventura.”
Alguém que com seus dias contados,
evita se lamuriar, e agradece observando e ensinando o que consegue antever,
deve no mínimo ser pensado como um orientador nessa tese infinda que se chama viver.
Qual o tamanho de sua aventura?
JMS

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