sexta-feira, 10 de agosto de 2012




Dr. João Mariano Sepúlveda

Cárdio Geriatra

@no_formol

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Pai Velho

Constante e comumente recebo pais amuados e introspectos, levados a meu serviço por zelosos e prestimosos filhos, que tentam a todo custo restaurar a fortaleza daqueles que nunca adoeceram e encontram-se combalidos, comprometidos e com seu propósito distorcido!
Ao invés de cuidar, torna-se o objeto do cuidado, ao invés de proteger, fragilizado pelas agruras da idade e/ou doença, demanda proteção, momento muito delicado!
Há uma alteração, inversão, uma mudança na naturalidade do processo, pois o convencionado é o Pai cuidar do filho!
Eventualmente esse propósito se perde, quando um Pai morre, adoece, se afasta, abdica, abandona!
Qual o propósito de um Pai?
O propósito da arma é matar, do carro o transporte, do relógio o tempo, maquinas tem propósitos únicos e bem definidos e quando param são consertadas ou descartadas!
O propósito do caminho é o destino, da fé a esperança, do amor a generosidade, da viagem a saudade, da loucura a sanidade, do celibato a castidade!
Qual o propósito de um pai?
Auxiliar a mãe, proteger, prover, dar segurança, apoiar, contemplar, estar próximo, mesmo ausente, perto mesmo distante, direcionar e moldar caráter e sentimentos.  Servir de modelo, exemplificar.  Pais cuidadores formam filhos comprometidos, que assumem o propósito dos Pais e agem de maneira a serem eles os Pais. Irmãos mais velhos assumem a função quando da perda do Pai precocemente, e guiam os mais jovens!  Absorvem o propósito!  
Velhos Pais chegam intimidados com sua autoestima em baixa, pois pensam já não ter mais valia se não podem  eles cuidarem de suas proles, acham-se estorvos, trabalho e demandas aos filhos, deprimem-se, adoecem, sofrem muito esses pobres tolos, no bom sentido, por esta  alteração no que lhes foi ancestralmente passado!     
Maquinas se restauram, objetivos se recuperam, pessoas não, estas sofrem muito quando  perdem seu propósito, ficando  sem rumo, vagando, perdido em meio a fatos novos, confusos, dispersos!
Historicamente, Pais se achavam apenas na obrigação de prover, deixando o ônus afetivo em dobro com as mães, posteriormente, passam a ser apenas geradores de nova descendência, deixando milhares  de “mulheres de Atenas”, devidamente prenhes e responsáveis pela criação, o que ainda, infelizmente, é muito comum gerando quadros em programas de TV como “Fantástico”, em TV aberta e programas, em TV fechada, como “Em busca do Pai”, na GNT, o conhecido abandono afetivo ainda é regra de pais imaturos!
Felizmente a maioria se restaura com a idade e tenta reparar as peripécias de juventudes ineptas! Porque descobrem-se quando alheios e desvinculados a prole sem seu propósito original!
O PAI ensinou aos Pais que devemos ser ponte, elos para evolução e crescimento dos filhos, objeto de respeito, admiração, espelho! Como diz o poeta “... o meu medo maior é o espelho se quebrar...”!
Dar amor e receber de volta, respeitar dando limites e orientação claras.
Propiciar o conhecimento, clareando  trevas de ignorância, e a luz da fé, professada em qualquer religião!
Lumiar!
Então qual o propósito de um Pai Velho?
“O que eu falo já não se escreve!”
“Nem os bichos lá de casa me obedecem!”
“Agora querem mandar em mim!”
“Não escolho nem minha comida, a ração já vem pronta!”
“Meus netos me acordam e me expulsam da sala!”...
São assertivas comuns do Pai velho, que se acha sem função, pois Pai que não guia é planta sem fruto, sem semente, descendência se deixa, por exemplo!
Tristes ou depressivos por excesso de ontem, ansiosos por excesso de amanhã, inseguros pela certeza da impermanencia! Participativo ou omisso, valente ou covarde, corajoso ou medroso, alegre ou depressivo, informal ou elegante, repressor ou liberal, mandão ou maníaca, seja qual forem as qualidades ou defeitos do seu, espero que ele esteja próximo, pois só não dá  suportar  o ausente, seja por morte ou opção é pena sempre dura de cumprir!  
Sejam lá as características que tiverem, penso que Pais, não ficam velhos, cristalizam-se, e quando chegam nesta fase são como a segunda voz da dupla sertaneja, o Chororó do Chitãozinho, ou como o humorista secundário, que faz a “escada” para o principal, o Dedé do Didi, ou seja, embora pensem não servir para muita coisa, sua presença faz o outro aparecer com segurança, seu suporte sustenta a evolução e sua falta é irreparável, sua perda quase intolerável!
Portanto Pais Velhos mesmo que lhes pareçam sem motivo, saibam que ainda lhes resta o propósito do próprio PAI!

JMS

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