Saudades
O sentimento mais presente no idoso que proclama mesmo que calado, um termo único da língua portuguesa, que não se traduz para idiomas anglo saxões! Duro sentir um incômodo e não poder expressar ao pé da letra o que abafa o peito!
Felizes nós sentimos e damos nome: saudades!
Chega sorrateiro, vai-se instalando a medida que os anos vão passando, diversifica e fica como farpa em pele tenra, dependendo da posição incomoda, distrai-se e novamente dói!
Todos temos saudades, o novo do colo e do peito, o velho do coito e do leito!
Quando vem, pega de jeito, tira de tempo, arrocha no peito, leva o alento, desconcerta o racional, dá até em animal! Experimenta se ausentar de seu ser de estimação, e quando voltar meça o choro pelo chão!
O velho junta mais que dinheiro, seja rico, pobre, plebeu ou nobre é sintoma universal, dá no bom e no mau, no interior, na capital, vem como onda de mar bravio, afogando como asma! Num repente se acalma, como gelo no verão, como sol na escuridão, vai e vem sem motivo, em domingo e feriado, fixando na retina o sentimento abusado, que não sai de nossa sina!
O velho sente saudade não de amores reencontrar, o velho morre mesmo de saudade é de voltar a amar, pois, parece pasmaceira, quando a emoção se aproxima, perna bamba de bobeira, inseguro, como um tolo, sublima, declina, reprime! Não pratica, pelo dolo!
Saudade não é doença como muita gente pensa, quando vem maneira é gostosa de curtir, quando vem com angustia, tristeza, melancolia, piorando todo dia, melhor é nem sentir!
Saudade de um doce, na infância, de uma reles implicância, de um livro ou um lugar, um carro, um carinho feito só daquele jeito, da casa dos pais ou da avó, da palavra ou do conselho que se ganhava sem pedir e se seguia sem sentir!
Saudade do nó de escoteiro, do bidê no banheiro, do canivete suíço, do padrão feminino mais roliço, do crush, da soda e do grapette, de fazer barba com gilete, de colar dente com chiclete, de procurar gente em marinete, que fugiu não sei pra onde, sobre o estribo de um bonde!
Saudade de um remédio, que se tomava em outra idade, seja soda cresotada, cafiaspirina ou Afonad, purgante de todo tipo, memoriol e colubiazol! Emulsão de Scott, óleo mineral e de fígado de bacalhau!
Saudades das comidas que nossa avó fazia, seja o carreteiro, ou doce da fruta caseiro, seja do arroz com feijão, ou da banana no meio do pão. Goiabada com queijo, maçã do amor antes de um beijo, mariola e caju passa, caipirinha de cachaça, broa de milho, biscoito de polvilho e farinha pra sequilho, comida como senda na cozinha da fazenda!
Saudade é coisa fajuta que fala, mas não escuta, tem voz, mas não tem ouvido quando vem não quer voltar, quando entra não quer sair, mas quando acomoda em uma alma, evanesce o sentido, entorpece a razão, domando o potro alazão mais arredio do rodeio, abrindo o peito do valente pelo meio, como foice em capim de recreio.
Saudade de brinquedos que jogava quando jovem, queimada, amarelinha, passar por baixo da linha, carniça, futebol, pescaria de anzol, cortar os dedos ligados pra ficar de mal, cuspir no chão por desafio, nadar em açude ou beira de rio, pera, uva ou maçã, primeiro contato, com as musas de amanhã!.
Há saudade que não passa, do olhar sedutor, da força igual motor, do fogo interior, que acende o amor, da vista aguçada, do cheiro da mulher amada, da audição apurada, da pele esticada, da vontade descontrolada...!
Como dizia a poetisa, C. Lispector:
“Saudades”... Sinto saudades de tudo que marcou minha vida. Quando vejo retratos, quando sinto cheiros, quando escuto uma voz, quando me lembro do passado, eu sinto saudades... Sinto saudades de amigos que nunca mais vi, de pessoas com quem não mais falei ou cruzei...
Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito! Daqueles que não tiveram como me dizer adeus;
...Sinto saudades das coisas que vivi e das que deixei passar, sem curtir na totalidade. Quantas vezes tenho vontade de encontrar, não sei o que... não sei onde...para resgatar alguma coisa que nem sei o que é, nem onde perdi...”
Oficio de velho é lembrar, olhos marejados, pensamento vagueando, indo no céu e voltando, surfando ao vento, ora lépido ora lento, treinado pensamento, antecipando a prevenção, fugindo pra todo lado pra ver se não encontra o seu fim! Como diz o ditado, eu velho fugindo da morte e a vida fugindo de mim!
Para quem pensa que de tudo viu, e que doença não serve pra nada, veja bem o contra senso, que a cura da saudade é o esquecimento da Alzheimer encaminhada!
Dia desses estive pensando , de que mais saudade eu sentia, e em tudo que tinha feito por que lembrança eu morria, pesquisei, procurei sem muito resultado, até ficar encabulado, mas eis que depois de um tempo me veio em forma de alento, que de tudo no mundo que vivia o que mais saudade eu sentia era aquilo que não fazia!
JMS

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