sexta-feira, 10 de maio de 2013

Envelhecimento produtivo
 
Dr. João Mariano Sepúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
 
Trabalhar envelhece?
Constantemente aconselhamos nossos pacientes a buscarem fazer o que melhor se adapte ao que gostem, sintam prazer, realizações, motivação pessoal, social, familiar, entre outros!
Que busquem aquilo que os remunerem condignamente, mas que também traga uma dose de endorfinas prazerosas, do bom dever cumprido!
Somos sistematicamente testemunhos de pessoas que surtam mediante as intempéries de seus afazeres, seja, por sobrecarga laboral, desproporção da responsabilidade com sua remuneração, ou pelo acúmulo de labores, e mesmo ainda a reciclagem emocional a profissionais que lidam com o stress alheio!
Afrontas a estes princípios quase sempre adoecem os cidadãos, por aumento de frustrações, incidência de stress crônico, déficit imunológico, injúria celular com mutação do DNA, aumento da formação de radicais livres, com conseqüente envelhecimento precoce, e possibilidade de redução da expectativa de vida! Algumas profissões e nichos profissionais são mais suscetíveis que outras, porem, dependendo do ambiente quase todas podem estar sujeitas!
Podendo instalar a chamada Síndrome de Bournout, doença de quem vive no limite no trabalho!
A forma de se encarar essa relação por parte do profissional, também pode determinar uma maior ou menor influencia no processo!
Controladores de vôos, pilotos de teste, operadores de maquinas de precisão, motoristas de rotas com horários rígidos, caixas e/ou tesoureiros bancários, petroleiros embarcados, são exemplos extremos de profissões estressantes.
Entre as categorias mais afetadas por estas relações viciadas, os médicos, prestadores de serviços a seguradoras e/ou cooperativas médicas, encontram-se entre os mais desmotivados, frustrados, e decepcionados com o curso de seu labor! Fora parte a remuneração ridícula, interlocutores classistas permissivos e submissos, como a maioria dos políticos, que imagino similares aqueles policiais “arregados” do filme Tropa de Elite, as constantes alterações das normas e regras do jogo, seguem inviabilizando um melhor projeto profissional!
Condições similares as frustrações do bom advogado, que mesmo bem remunerado, vive a lentidão do ganho de seu cliente, que depende de tramites anacrônicos!
Analogicamente sobre o trabalho sob pressão, com envelhecimento, e até mesmo a extinção de populações indígenas, no Congo Belga e na Amazônia Peruana, com inserções na Brasileira, no inicio do século passado de 1905 a 1920, refiro o livro do Nobel peruano, Mario Vargas Llosla, O Sonho do Celta,  no qual, o narrador, descreve os horrores a que são submetidos, povos extrativistas de látex, dos seringais, para produção da borracha,  novidade necessária,  principalmente  na industria da guerra, submetidos a cotas, progressivas e inalcançáveis, e sua não obtenção punidas com espancamentos, chicotadas, seqüestro de entes próximos, enfim, um sem número de barbáries em nome do desenvolvimento e da culturação de povos!
Os relatos do estado de inanição, da desorientação frente a violência gratuita e injustificada, a precocidade do desgaste físico, redução de sua utilidade e descarte, estarrecem!
Seria então uma obra histórica de tempos remotos, com fatos absolutamente superados? Estamos livres de tamanho ultraje? Será?  Não parece bem assim, quando nos imaginamos evoluídos, recrudescem os instintos mais primitivos da exploração do homem, por seu semelhante!   
Recentemente acompanhando um noticiário em TV por assinatura, ouvi que em uma plantação de cana de açúcar, no estado de Mato Grosso, um cacique de uma reserva próxima, sublocava o trabalho de menores indígenas aos agricultores, que pagavam, a ele, algo irrisório e os obrigavam, a um comportamento submisso, subserviente, enfim quase (?) escravo! Esta noticia data da semana de 19 a 26/09/11! Cem anos depois tudo como dantes...
A qual escravidão estamos nos submetendo, qual a fábrica de frustrações andamos freqüentando, que estado moderno estamos construindo? O que realmente aprendemos com nossos indignos erros passados? Que projeto encaparemos para envelhecer sem presas?
Que projeto de felicidade buscamos em nosso campo profissional, quantos de nós, não somos escravos de nossas escolhas, opções, ou rumos profissionais, aquilo que nos obrigamos, mês a mês, para honrarmos nossos cada vez maiores financiamentos, que viabilizam sonhos e necessidades?  Será o nosso sistema bancário, uma versão moderna dos antigos donos de seringais, senhores de engenhos...?! Quantos mártires mais serão necessários?
 Como diz o citado autor “... a vida não tem algo de absurdo, como uma espécie de drama que de repente vira farsa?”
Trabalhar não envelhece, fazer obrigado o que não se gosta, adoece!         
JMS
 

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