sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Torre de Babel
 
Dr. João Mariano Seúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
 
O homem desde tempos imemoriais, tenta alcançar as divindades, uma das muitas ideias dá título a este texto, não por acaso!
Periodicamente surgem mirabolantes projetos que valorizam o material como meio para o espiritual, ou seja, vamos  construir uma grande torre que nos fará alcançar os céus, onde dizem vivem as divindades e assim me aproximarei delas!? Podendo até alcançar uma maior longevidade, quiçá a vida eterna, ou a imortalidade comum aos Deuses.
Genial!
Colocado em prática,  escolhido o local, fabricas de cerâmicas produziam uma preciosidade a época, os tijolos que demandavam, mão de obra, feno, queima, secagem ao sol, moldes etc...!
Massas de liga, engenharia de ultima geração, enfim tudo para se alcançar um Deus que traria a paz tão necessária!
Durante a construção quando caia lá de cima um dos tijolos e se quebravam, haviam inquéritos, reclamações, punições físicas, enfim todo processo administrativo tão próprio dos tecnocratas e gestores da hora!
Paradoxalmente quando caia lá de cima um dos operários, construtores de mais uma sandice como tantas da história, não havia nenhum problema, morreu deixa para lá é só mais uma vida um ser humano que pouco importa em meus projetos de chegar a Deus! A perfeição!?!?!?
Pense bem quantas torres você vê hoje em construção, quantos projetos encantados te afasta da essência da Fé com financiamentos de salvo condutos para o paraíso, os responsáveis nem sempre aparecem quando falham suas demandas, não serão os estádios, as arenas de eventos nossas torres atuais e seus protagonistas ídolos de barro sem nenhuma consistência filosófica, com prazo de validade curto e valores incertos.
O que fica depois do show, do jogo, do evento, senão a frustração  do término e o vazio não preenchido pela insossa expectativa do mega, único, e recorrente repetitivo programa.
Utilizei uma imagem evocada pelo Papa Francisco em sua visita ao Brasil, e me valho de suas palavras  na qual diz não se importar com o local, mas com quem esta no local, “...a mim interessa que não fique nenhuma criança com fome ou sem acesso a educação, assim como nenhum idoso sem atenção a saúde, não importando se quem executou, foram católicos, protestantes, judeus ou muçulmanos, isso se discute depois...”!!      
A sociedade segundo Ele, descarta os extremos, os muito jovens e os muito velhos se concentrando no próprio umbigo, é notório o descaso de pais em relação aos seus filhos, deixando-os criar sem acolhimento, dando apenas o provimento pecuniário, desprovido do afeto.
Idêntica relação dos filhos com seus pais já envelhecidos, quando não negligenciados, tem no máximo o provimento pecuniário e a designação de terceiros para exercerem os cuidados, mas o acolhimento que gera a sensação de segurança, este está longe!
Nesse contexto nascer e envelhecer, torna-se aventura incerta de possibilidades nocivas múltiplas, com formação de caracteres flácidos, permissivos e descomprometidos.
Contrapartida nos idosos a sensação de incertezas e inseguranças, promovem processos patológicos no período mais sensível do ser humano, seu ocaso! 
Reparem  bem dentro de você e a sua volta, o que andas fazendo para o teu próximo,  o que andam fazendo teus vizinhos, parentes, amigos em sua paróquia ou congregação de acordo com a fé que você professe,  em seu bairro ou região finalmente em sua cidade e estado.
Tente restaurar sua fraternidade e passe realmente a se importar com teu próximo seja seu familiar, amigo, conhecido, ou apenas aqueles que fazem parte da paisagem como o flanelinha que cuida de seu carro, ou o porteiro da escola de seus filhos, parou para perguntar o nome deles? Sabe se estão em dificuldades, quais as angustias eles tem? A impessoalidade e a indiferença é fomento para exclusão e desigualdades.
Parafraseio o dizer  “o que temos nós deixamos,  o que somos, nos levamos”,  portanto a importância do material é absolutamente relativa e a do ser é relativamente absoluta!
Insistindo no exemplo de Francisco, quando no Brasil recusa o carro blindado que o isolaria de seus e reflete “como posso acolher, tocar, sentir, meus seguidores dentro de uma redoma” ?   
Tenho uma visão politeísta na pratica geriátrica, não me importa o santo, guru, ou entidade de plantão que auxilie na recuperação e cura de um enfermo, isso depende da fé que ele professe, importa sim é que ele se recupere, e tenham como certo o poder da Fé na saúde de um ser mais velho é tão fundamental quanto o ar para o respirar!
Acolher é a melhor forma de um profissional se aproximar de um paciente, e dele obter a confiança, mas acolhimento requer incondicionalidade, e esta requer distancia dos ditames comerciais que hoje permeiam e vão seguir em torno da pratica medica, por isso mantenho minha posição de que deveríamos ter em nosso País a carreira de medico de Estado, como juízes, onde os profissionais despreocupados e com toda condição de trabalho praticariam algo próximo do ideal. Principalmente nas praticas pediátricas e geriátricas, extremos negligenciados!  
Reflitam pois, se vamos seguir valorizando os tijolos que se quebrem ou as vidas que se perdem, quantas torres ainda vamos ver construídas até entendermos que o que buscamos tão fora, tão longe, na verdade esta dentro de nós!
JMS

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