Torre de Babel
Dr. João Mariano
Seúlveda
Cárdio Geriatra
@no_formol
O homem desde
tempos imemoriais, tenta alcançar as divindades, uma das muitas ideias dá
título a este texto, não por acaso!
Periodicamente
surgem mirabolantes projetos que valorizam o material como meio para o
espiritual, ou seja, vamos construir uma
grande torre que nos fará alcançar os céus, onde dizem vivem as divindades e
assim me aproximarei delas!? Podendo até alcançar uma maior longevidade, quiçá
a vida eterna, ou a imortalidade comum aos Deuses.
Genial!
Colocado em
prática, escolhido o local, fabricas de cerâmicas
produziam uma preciosidade a época, os tijolos que demandavam, mão de obra,
feno, queima, secagem ao sol, moldes etc...!
Massas de liga,
engenharia de ultima geração, enfim tudo para se alcançar um Deus que traria a
paz tão necessária!
Durante a
construção quando caia lá de cima um dos tijolos e se quebravam, haviam
inquéritos, reclamações, punições físicas, enfim todo processo administrativo
tão próprio dos tecnocratas e gestores da hora!
Paradoxalmente
quando caia lá de cima um dos operários, construtores de mais uma sandice como
tantas da história, não havia nenhum problema, morreu deixa para lá é só mais
uma vida um ser humano que pouco importa em meus projetos de chegar a Deus! A
perfeição!?!?!?
Pense bem quantas
torres você vê hoje em construção, quantos projetos encantados te afasta da
essência da Fé com financiamentos de salvo condutos para o paraíso, os responsáveis
nem sempre aparecem quando falham suas demandas, não serão os estádios, as arenas
de eventos nossas torres atuais e seus protagonistas ídolos de barro sem nenhuma
consistência filosófica, com prazo de validade curto e valores incertos.
O que fica depois
do show, do jogo, do evento, senão a frustração
do término e o vazio não preenchido pela insossa expectativa do mega,
único, e recorrente repetitivo programa.
Utilizei uma
imagem evocada pelo Papa Francisco em sua visita ao Brasil, e me valho de suas
palavras na qual diz não se importar com
o local, mas com quem esta no local, “...a
mim interessa que não fique nenhuma criança com fome ou sem acesso a educação,
assim como nenhum idoso sem atenção a saúde, não importando se quem executou, foram
católicos, protestantes, judeus ou muçulmanos, isso se discute depois...”!!
A sociedade
segundo Ele, descarta os extremos, os muito jovens e os muito velhos se
concentrando no próprio umbigo, é notório o descaso de pais em relação aos seus
filhos, deixando-os criar sem acolhimento, dando apenas o provimento pecuniário,
desprovido do afeto.
Idêntica relação
dos filhos com seus pais já envelhecidos, quando não negligenciados, tem no
máximo o provimento pecuniário e a designação de terceiros para exercerem os
cuidados, mas o acolhimento que gera a sensação de segurança, este está longe!
Nesse contexto
nascer e envelhecer, torna-se aventura incerta de possibilidades nocivas
múltiplas, com formação de caracteres flácidos, permissivos e descomprometidos.
Contrapartida nos
idosos a sensação de incertezas e inseguranças, promovem processos patológicos
no período mais sensível do ser humano, seu ocaso!
Reparem bem dentro de você e a sua volta, o que andas
fazendo para o teu próximo, o que andam
fazendo teus vizinhos, parentes, amigos em sua paróquia ou congregação de
acordo com a fé que você professe, em
seu bairro ou região finalmente em sua cidade e estado.
Tente restaurar
sua fraternidade e passe realmente a se importar com teu próximo seja seu
familiar, amigo, conhecido, ou apenas aqueles que fazem parte da paisagem como
o flanelinha que cuida de seu carro, ou o porteiro da escola de seus filhos,
parou para perguntar o nome deles? Sabe se estão em dificuldades, quais as
angustias eles tem? A impessoalidade e a indiferença é fomento para exclusão e
desigualdades.
Parafraseio o dizer “o que temos nós deixamos, o que somos, nos levamos”, portanto a importância do material é absolutamente
relativa e a do ser é relativamente absoluta!
Insistindo no
exemplo de Francisco, quando no Brasil recusa o carro blindado que o isolaria
de seus e reflete “como posso acolher, tocar, sentir, meus seguidores dentro de
uma redoma” ?
Tenho uma visão
politeísta na pratica geriátrica, não me importa o santo, guru, ou entidade de
plantão que auxilie na recuperação e cura de um enfermo, isso depende da fé que
ele professe, importa sim é que ele se recupere, e tenham como certo o poder da
Fé na saúde de um ser mais velho é tão fundamental quanto o ar para o respirar!
Acolher é a
melhor forma de um profissional se aproximar de um paciente, e dele obter a
confiança, mas acolhimento requer incondicionalidade, e esta requer distancia
dos ditames comerciais que hoje permeiam e vão seguir em torno da pratica
medica, por isso mantenho minha posição de que deveríamos ter em nosso País a
carreira de medico de Estado, como juízes, onde os profissionais despreocupados
e com toda condição de trabalho praticariam algo próximo do ideal. Principalmente
nas praticas pediátricas e geriátricas, extremos negligenciados!
Reflitam pois, se
vamos seguir valorizando os tijolos que se quebrem ou as vidas que se perdem,
quantas torres ainda vamos ver construídas até entendermos que o que buscamos
tão fora, tão longe, na verdade esta dentro de nós!
JMS
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