sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Ainda que só faltasse um dia


Ainda que só faltasse um dia

Dr. João Mariano Sepúlveda
Cardio Geriatra
@no_formol

 

Mesmo assim garbosamente levantaria, comporia um preparo de lorde, casual porem elegante, equilibrado e simples!
Podaria o bonsai, usaria um bom perfume, equilibraria a gravata borboleta,ou o chapéu de ir a festa, se fosse mulher.
Caso estivesse por horas ou minutos, procuraria manter o olhar no horizonte para buscar os caminhos a seguir, mesmo por um curto período ter norte é fundamental!
Perder o rumo não é solução de crise, tão mais sua perpetuação!
Antes de partir perguntaria às coisas qual delas me acompanharia, e se afinal fui dono delas ou elas de mim, avaliaria com justeza o tempo desprendido para cuidar destas posses, e se ele poderia ter sido direcionado em situações de real importância! Avaliaria se me fosse dado a pensar, se não seria melhor investi-lo em seres, não em teres.
Aceitaria os limites de humanidade, preferindo andar a pé,  para poder ver com calma em detalhes o ar, o céu, a lua! Há a lua, quanto tempo não olhas para ela?
Superar a humanidade é projeto desrespeitoso, admiti-la é inteligente!
Usar o tempo concedido em nossa passagem por essa vida, talvez possa transformar um ultimo dia  em uma eternidade, bastando para isso ter como certa a impermanência como regente de nossa existência!
O desapego como norma é agente de importância da simplificação dos atos, atitudes e modus vivendi, tipo valorizar apenas o essencial! O que é essencial para uma vida profícua, de que tanto se necessita para se viver plenamente e sermos pessoas felizes? Simplificar facilita, desapegar tira o carga e tornar a marcha mais fácil!
Tomaria por base, as grandes peregrinações, todos os que fazem longos percursos, longas e penosas caminhadas, são unânimes em afirmar reduza a carga, procure o que realmente é essencial! Porque senão você desiste logo no começo!
Muitas vezes nos cercamos de coisas, que achamos que nos farão falta em algum momento da vida, e vamos acumulando trastes que envelhecem, e viram entulhos, que chegam a atrapalhar nosso ir e vir esbarrando em nossas pernas, reduzindo nossa mobilidade!
Viver é como peregrinar, chegar longe nesta caminhada, requer uma constante redução de carga, posses e pertences!
As cargas físicas talvez sejam mais fáceis de nos livrarmos, mas as emocionais e espirituais, estas são mais complexas!
Querelas mágoas, raivas, diferenças, INVEJA, emoções negativas que pesam toneladas na marcha de quem, não se dá o trabalho de diariamente acertar suas contas, seja esclarecendo vendetas, seja simplesmente “perdoando aquele que nos tem ofendido”, acreditando naquilo que professas quase que diariamente, seja em que linguagem for!
Remover, pois, a carga interna é condição básica de se ter uma jornada pertinente.  
Estabelecida a carga que somos capazes de levar, é seguir,  buscando sempre os melhores caminhos, com as melhores companhias, e mesmo quando entrarmos por um beco sem saída, ter a humildade de retornar e retomar a marcha com dignidade, reparando sempre quem ainda segue ao seu lado, deixando em atalhos aqueles que  se mostrarem inadequados e não confiáveis de seguir!
Deixarmos as companhias no caminho, talvez, seja de todas, a decisão mais difícil, porem há pessoas que nos tolhem de tal forma nossa mobilidade, que não deixam escolha, como salvar náufragos, devemos sempre tentar, porem quando se agarram a nós e puxam para o fundo levando ao risco de sermos nas a afogar, decidido esta!
Já que é inexorável envelhecer e quase certo perecer, e esse quase, tentativa vã, condicional, de engodar o fim, projetaria sem pressa o modelo de desapego progressivo para chegar o mais longe que me fosse permitido da forma mais leve que me fosse possível chegar.
Não deixaria perder um minuto de minha alegria, praticaria tudo que proporcionasse prazer e felicidade a mim e ao próximo, me tornaria uma pessoa que outros sentiriam falta, e não alguém de quem queira distância!
Pleno de minha impermanência, pacientemente perpetuaria minha presença pelo exemplo de boas memórias!
Usaria as lagrimas para me emocionar e a tristeza para me superar e buscar motivos de realizar mais para o bem comum, de que para bem próprio. Exercer seu objetivo social!
Enfim mesmo que só me restasse um dia, penso que teria tempo de contemplar, admirar absorver mais um pouco desta graça que temos e muitas vezes não reparamos, e seja quem formos, não temos o direito de ficarmos perdendo tempo do momento único, que num mísero instante é passado, e assim sendo só existe em nossa memória!
Logo formar e ter boas lembranças é o moto contínuo fundamental da perpetuação nossa estada nessa tão perene VIDA! Tão imortal sou quanto o volume de boas memórias deixei, te faz lembrar alguém que passou por aqui há mais de dois mil anos?
JMS

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